Mapas de Foco e os currículos

Há um ano teve início um dos períodos mais desafiadores da educação brasileira: a interrupção das atividades escolares presenciais, causada pela pandemia do coronavírus.

Sem saber exatamente o que e como fazer para manter as aulas, sem tempo de planejar antes para agir nas incertezas causadas pela pandemia em todos os setores, incluindo a educação, o movimento feito pelo Brasil nos setores público e privado foi de interromper as aulas para então ver quando e como prosseguir para reduzir os danos causados em nossa já combalida educação básica.

Sem nenhuma certeza do tempo que duraria o afastamento social, sem segurança de como evitar a propagação do vírus, sem recursos adequados para garantir a todos os estudantes a continuidade dos estudos mesmo distanciados das escolas, as redes reagiram como puderam.

Programas de televisão, atividades enviadas aos alunos, plataformas de apoio às redes de educação, organização de aulas online, entre outras, foram ações importantes para tentar garantir ao máximo que os estudantes do país seguissem tendo aulas de algum modo. No entanto, o maior desafio não estava apenas em planejar as aulas distanciadas, e sim garantir as aprendizagens. De fato, um bom planejamento sempre deveria começar no que se deseja que os alunos aprendam, embora tradicionalmente seja sempre a forma de se chegar lá e a primeira a ser pensada. 

Antes da pandemia, os desafios educacionais brasileiros eram enormes, e as chances de que eles aumentem é igualmente grande, em especial devido ao período sem aulas presenciais que ainda se mantém em muitas redes públicas de nosso país.  Se já éramos devedores de uma educação de qualidade aos nossos estudantes, pesquisas como Perda de aprendizado no Brasil durante a pandemia de covid-19 e o avanço da desigualdade educacional, conduzida pela equipe da Clear FGV EESP, indicam que pode haver um retrocesso de até quatro anos na aprendizagem dos estudantes brasileiros, sendo que nos mais vulneráveis o impacto pode ser maior. 

Uma das formas de evitar que se cumpram os prognósticos ruins em relação à aprendizagem dos estudantes brasileiros é garantir que o conjunto das ações que se planeja no Brasil para a retomada das aulas tenha foco em garantir os direitos de aprendizagem dos estudantes previstos na BNCC e nos currículos a ela alinhados.

Por isso, priorização das aprendizagens é uma ideia importante para termos no horizonte, assim, podemos garantir as aprendizagens focais relativas aos anos de 2020 e 2021, evitando a visão de “dar todo conteúdo de dois anos”, mas focando nas habilidades mais nucleares de cada componente. Esse é o contexto dos Mapas de Foco do Instituto Reúna, que não podem ser confundidos,  nem mesmo substituir, com os currículos referenciais das redes.

A própria palavra currículo, que vem do latim curriculum, significa essencialmente caminho. Trata-se, portanto, da trajetória que deve ser definida pela rede, sendo sua identidade, contendo prioridades, marcas de regionalidade e especificidades que lhe são inerentes. 

Por isso, Mapas de Focos, como a BNCC, não são currículo, e nenhuma rede pública deve abrir mão de fazer a adequação de seus currículos referenciais, realizados em regime de colaboração com muitos atores, para adotar os Mapas ou qualquer outro material feito sem sua participação em substituição a ele. 

Por Katia Smole

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