Educação Superior no Brasil sofre com a falta de qualidade da Educação Básica
A edição de 2025 do “Education at a Glance”, estudo da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), divulgada no início do mês de setembro, revela que, no primeiro ano da graduação, um a cada quatro universitários brasileiros (25%) abandona o curso em que está matriculado. Nas demais nações que fazem parte da OCDE, a taxa é bem menor, 13%. A má notícia, infelizmente, está acompanhada de outras. Entre os brasileiros, somente 38% dos universitários terminam a graduação dentro do prazo esperado (a média da OCDE é 43%) e, mesmo três anos depois da data em que todos deveriam ter concluído o curso, 51% dos alunos continua sem poder receber o diploma (na OCDE, 30% é a média). E, no Brasil, a permanência na universidade e a conclusão deságuam na taxa de 24% dos jovens adultos (25 a 34 anos) que têm ensino superior completo – na OCDE, a média é de 49%.
Um dos motivos que prejudica demais o jovem brasileiro que chega ao Ensino Superior é a aprendizagem insuficiente e, por muitas vezes, superficial durante a Educação Básica. São poucos os que terminam o Ensino Médio tendo aprendido, de fato e com consistência, o que está previsto na Base Nacional Comum Curricular (BNCC) e, assim, conseguem encarar os conteúdos universitários com a compreensão que demandam. A eles, muitas vezes, faltam competências e habilidades importantes que não foram desenvolvidas e são fundamentais para compreensão dos conteúdos no curso em que estão matriculados no Ensino Superior. Ademais, as dificuldades em Língua Portuguesa, ainda em alta no Brasil, acabam afetando quase a todos. Conforme revelam dados do Sistema de Avaliação da Educação Básica (SAEB), a proficiência 9o. ano diminui de 260,1, em 2019, para 258,8, em 2023; afinal, saber ler e escrever é básico em qualquer graduação.
Quanto ao déficit no conhecimento matemático, ele se reflete principalmente nos cursos das áreas de Ciências, Tecnologia, Engenharia e Matemática: nestes, a taxa de conclusão é de 38%, somente. Dados mais recentes do Programa Internacional de Avaliação de Estudantes (Pisa) mostram que 73% dos estudantes brasileiros na faixa etária de 15 anos não atingiram o mínimo de proficiência na edição mais recente. E dados do Todos pela Educação revelam que 59% terminam o Ensino Médio em níveis muito abaixo do esperado na disciplina, o que significa dizer que não sabem calcular sequer porcentagens e, no pior dos casos, não resolvem problemas com as quatro operações mais simples.
É impossível melhorar os índices da Educação Superior – incluíndo as taxas de acesso à universidade, que também ainda estão longe do ideal – se continuarmos falhando com nossas crianças e os adolescentes que estão na Educação Básica no momento presente. Não podemos mais deixar com que entrem e saiam da escola sem que aprendam, todos, com qualidade.
Alguns esforços para isso são inadiáveis, a começar pela recomposição das aprendizagens. Considerando os problemas da Educação que já tínhamos antes da pandemia e os que ela provocou com a suspensão das aulas presenciais, a estratégia precisa ser colocada em cena pelas redes no Brasil. A primeira turma que passará por toda a Educação Básica sem ter vivido os impactos diretos da pandemia vai se formar no 9º ano apenas em 2031. Isso significa que, até lá, todas as gerações de estudantes acumulam defasagens. Então, é necessário mapear as habilidades que faltam para esse grupo, especificamente, e entender as necessidades específicas para garantir suporte contínuo. O Instituto Reúna desenvolveu e disponibiliza gratuitamente os Mapas de Foco da Base Nacional Comum Curricular (BNCC), uma seleção de habilidades focais para cada ano do Ensino Fundamental conforme a BNCC. O objetivo principal é orientar a flexibilização curricular.
Para recompor aprendizagens matemáticas, em especial, o Avançar – Para Uma Matemática Engajadora atende às necessidades de recomposição de aprendizagens nesse componente dos estudantes do 4º ao 9º ano.
Especificamente sobre matemática, o Ministério da Educação (MEC) já anunciou para breve o lançamento de uma política pública exclusiva para a área, o Toda Matemática, para promover, nas redes públicas de ensino, uma base sólida a fim de alavancar o letramento matemático, contribuindo para diminuir o número de cidadãos que não sabem resolver problemas simples envolvendo uma ou mais das quatro operações básicas: adição, subtração, multiplicação e divisão, e têm baixa compreensão dos números, podendo somente identificar dígitos familiares de alguma maneira; e consequentemente, formar melhor os estudantes para a área de exatas no ensino superior.
Também é um esforço do governo federal os programas Escola das Adolescências, Pacto pela Recomposição das Aprendizagens e Novo Ensino Médio, voltados justamente para repensar as etapas (a segunda fase do Ensino Fundamental e os três anos finais da Educação Básica), que têm altas taxa de abandono e evasão, pois se mostram desinteressantes para os alunos e desconectados da vida prática.
Importante lembrar ainda que a Educação Profissional e Tecnológica (EPT) para estudantes do Ensino Médio é um caminho tão válido e legítimo quanto o Ensino Superior para a vida no mercado de trabalho. Então, essa modalidade também precisa ser contemplada quando falamos em qualidade na Educação Básica. O movimento de busca pela profissionalização está acontecendo no mundo todo, inclusive em países muito bem-sucedidos na educação e na economia. Alemanha, Inglaterra e Japão chegam a ter cerca de 54% dos jovens formados em cursos técnicos profissionais. No Brasil, não podemos mais investir em uma única opção: o Ensino Médio que prepara para a universidade. A EPT não é sinônimo de redução na qualidade do ensino nem formação de mão-de-obra barata, pelo contrário. O país tem, atualmente, 2,5 milhões de alunos em cursos técnicos de nível médio matriculados em Institutos Federais (IFs). O governo federal está implantando 102 novos campi em todo o Brasil – eles vão gerar, quando estiverem em pleno funcionamento, 142,8 mil novas vagas de educação profissional e tecnológica, majoritariamente de cursos técnicos integrados ao ensino médio. Hoje, existem 686 unidades da Rede Federal de Educação Profissional, Científica e Tecnológica no país, da qual os IFs fazem parte.
Outra ótima notícia, que comprova que estamos num bom caminho para percorrer e implementar soluções é que estamos na fase de discussão das metas do novo Plano Nacional de Educação. Temos de aproveitar o momento para compor um texto final que tenha metas relativas à melhoria da aprendizagem claras, ambiciosas, objetivas e mensuráveis não só no que diz respeito à garantia de estar na escola. E sim de que todos aprendam com qualidade.

