Como combater o bullying na escola e promover adolescências mais saudáveis?
O número é intimidador, assim como o problema que ele revela: 6,7 milhões de estudantes no Brasil relataram já terem sofrido algum tipo de violência na escola, o que representa 11% dos quase 60 milhões de alunos matriculados. Os dados são de uma pesquisa sobre violência escolar realizada pelo Instituto DataSenado, em 2023.
De acordo com a Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco), a violência escolar compreende toda ação ou omissão que cause ou visa causar dano à escola, à comunidade escolar ou a algum de seus membros, que ocorram no ambiente de ensino ou que não sejam relacionadas às atividades escolares em si. Uma das violências mais praticadas entre os estudantes é o bullying. Ele está classificado pela Lei n° 13.185 como “intimidação sistemática, quando há violência física ou psicológica em atos de humilhação, ou discriminação, como ataques físicos, insultos, ameaças, comentários, apelidos pejorativos, entre outros”.
O combate à violência escolar vai muito além de conversas com os estudantes em sala de aula. O apoio psicológico, por exemplo, é apontado como essencial para as vítimas, inclusive para professores expostos a agressividades e com dificuldades na gestão de conflitos. O Governo Federal vem realizando ações para fortalecer a causa. Em 2016, instituiu o Dia Nacional de Combate ao Bullying e à Violência nas Escolas (7/4), devido ao Massacre de Realengo, de 2011.
Em 2024, lançou o programa Escola que Protege, para fortalecer a capacidade das redes de ensino para prevenir e enfrentar a violência nas escolas, com formações temáticas para os profissionais da educação, orientações na elaboração de planos de prevenção e resposta, além de promoção da cultura de paz e a convivência democrática.
Adolescências em debate
No último mês, o debate sobre o combate ao bullying, os impactos e consequências dessa prática na vida dos jovens veio à tona, devido ao sucesso da minissérie “Adolescência”, disponível na Netflix.
Baseada em casos reais, a trama conta a história de Jamie, de 13 anos, acusado de cometer um crime chocante, e promove a reflexão sobre dinâmicas familiares, vulnerabilidade dos jovens, uso das redes sociais e desafios de comunicação entre pais e filhos. Um dos principais cenários da minissérie é o ambiente escolar, onde o bullying está por toda parte. O desenrolar da história também deixa claro as falhas cometidas pela escola na proteção dos estudantes e a falta de preparo dos professores para lidar com a violência escolar, gerando consequências que, no caso de “Adolescência”, foram fatais.
A diretora-executiva do Reúna, Katia Smole, acredita que o papel da minissérie no debate sobre a função da escola frente aos desafios dos adolescentes é positivo. “Pode ajudar trazendo foco para uma etapa muito importante da vida e do desenvolvimento humano, que é a adolescência. Ela traz aspectos relevantes da participação da família, da escola e, de fato, está fazendo as pessoas se perguntarem ‘e nós com essa adolescência?’. É uma discussão essencial, que ficava somente com alguns especialistas”, disse em entrevista ao programa CBN Madrugada, da rádio CBN.
A recém-proibição do uso de celulares para fins não pedagógicos nas escolas foi um passo importante para a descoberta de como educar uma geração que está conectada o tempo todo, mas também bastante ansiosa.
“O bullying na escola é muito grave e precisa ser cuidado por todos. Mas quando vai para as redes sociais, é como se o pátio da escola tivesse se potencializado. Esse é um ponto que eu vejo que tanto a família quanto a escola precisam observar. Os conceitos de espaço público, espaço privado e de segurança se transformam muito, e quando você tem o espaço cibernético com acesso ilimitado à informações, à conexões que nem sempre são boas, à fake news e preconceitos de todos os tipos, nunca foi tão importante a escola trabalhar com os alunos sobre valores, segurança, discussão sobre verdade e respeito ao outro”, afirma Katia.
Escola das Adolescências: um caminho possível
Frente a tantos desafios, a pergunta que fica é: como construir uma escola alinhada aos anseios das adolescências brasileiras, que ofereça educação qualificada e ambiente atraente aos estudantes? Em maio de 2024, o Ministério da Educação (MEC) realizou uma escuta com 2,2 milhões de alunos dos anos finais do Ensino Fundamental. O objetivo foi conhecer de forma aprofundada os adolescentes dessa etapa de ensino para, então, desenvolver o programa Escola das Adolescências. A iniciativa visa à construção de uma proposta para os Anos Finais do Ensino Fundamental que se conecte com as diversas formas de viver as adolescências no Brasil, fazendo da escola um ambiente mais acolhedor, atraente e com aprendizagens mais significativas para estudantes do 6° ao 9° ano.
“Entre os alunos dos anos finais, somente 66% terminam os estudos na idade certa. Ao longo do processo há reprovação, desinteresse, falta de pertencimento e o aluno sai da escola. O abandono é desafiador, e trazer o estudante de volta é difícil. O programa Escola das Adolescências traz orientações sobre como montar essa política, desde a equipe técnica da Secretaria de Educação, passando pelos gestores escolares, pensando no currículo e na organização da escola, que faça com que o estudante permaneça aprendendo. Porque a não aprendizagem também é fator de bullying e de abandono”, explica Katia Smole.
Na prática, o Governo oferece apoio técnico e financeiro para a implementação do programa pelas redes de ensino, com orientações e direcionamentos disponíveis em um conjunto de materiais técnico-pedagógicos elaborados pelo Instituto Reúna, parceiro-técnico do MEC. São quatro materiais:
- Guia de apoio às transições e alocações de matrículas: Destaca as características das adolescências e indica elementos importantes para a promoção da colaboração interfederativa, a fim de melhorar transições educacionais e a alocação de matrículas nos territórios.
- Guias de apoio ao desenvolvimento profissional: São três publicações, cada uma focada no desenvolvimento de um público-alvo: Equipes Técnicas das Secretarias; Direção Escolar; e Coordenação Pedagógica. Os guias também focam em estratégias necessárias para a implementação da política Escola das Adolescências.
- Guia de recomendações curriculares e pedagógicas: Apoia a integração curricular, o uso de metodologias inovadoras e a gestão da aprendizagem, além de oferecer orientações para fortalecer práticas pedagógicas que promovam um ambiente educacional centrado na aprendizagem e no desenvolvimento integral de todos, valorizando as experiências e necessidades dos adolescentes.
- Cadernos de Inovação Curricular: Com sequências didáticas que consideram habilidades essenciais em diferentes áreas e as singularidades próprias das formas de vivenciar as adolescências, os cadernos ajudam a estruturar um currículo que expanda as perspectivas pedagógicas, com mediação docente focada na criação de situações de ensino e aprendizagem que incentivem a participação, o protagonismo e a autoria dos estudantes.
De fato, o bullying é um problema que sempre existiu nas escolas de todo o país, mas que nos últimos anos ganhou mais repercussão. Cabe aos responsáveis pelos estudantes usarem as ferramentas que têm para apoiar o combate a essa violência: nas escolas, aproveitando todo o potencial das políticas e programas disponíveis pelo Governo, e em casa, estabelecendo uma relação saudável com os adolescentes, baseada no diálogo, na confiança, no respeito e na empatia.


1 Comentário
Obrigada Instituto Reúna, pelos materiais de excelência que impulsionam a educação pública. Gratidão.
Prossigam!